Fotografia de arquivo. Andriy Parubiy expulsava Vadym Novynskyi da presidência da Verkhovna Rada, com as palavras: ‘Afasta-te de mim, criatura impura!'”
Nota do tradutor:
* O Conselho Supremo da Ucrânia (ucraniano: Верхо́вна Ра́да Украї́ни, Verkhovna Rada)
A 28 de Agosto, o Serviço Estatal da Ucrânia para a Política Étnica e Liberdade de Consciência reconheceu a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo como afiliada a uma organização religiosa estrangeira cuja actividade está proibida na Ucrânia, ou seja, a Igreja Ortodoxa Russa. Esta decisão é consequência do facto de a UOC-MP não ter cumprido a exigência do Estado ucraniano de cortar os laços com o país agressor e com a igreja que justifica a guerra genocida da Rússia contra a Ucrânia.
A história da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (UOC-MP) mostra que a Rússia travou, ao longo de décadas, não apenas uma guerra política e económica contra a Ucrânia, mas também uma guerra ideológica. Um dos principais instrumentos dessa agressão foi a Igreja Ortodoxa Russa e a sua filial ucraniana. Esta estrutura funcionava como um canal poderoso para a difusão da ideologia do “mundo russo” (russkiy mir). Manipulava a história, destruía a identidade nacional e procurava manter a Ucrânia sob a influência do Kremlin.
O lóbi político e a divulgação das ideias do Patriarcado de Moscovo foram financiados por oligarcas, empresários locais e até pelo crime organizado. Esse dinheiro permitia à Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (UOC-MP) construir templos, manter milhares de paróquias e promover os seus interesses através dos media e de políticos.
Este artigo é uma sistematização daqueles que garantiram o acesso do “poder espiritual” russo a financiamento e a recursos. Porque essas pessoas ajudaram o mal a enraizar-se na Ucrânia e tornaram-se parte integrante da grande máquina de guerra russa contra a Ucrânia.
“Oligarcas ortodoxos” e “empresários-políticos”: investidores estratégicos
No topo da pirâmide financeira da UOC-MP estavam os oligarcas cujos interesses empresariais e ambições políticas estavam intimamente ligados à Rússia. O seu apoio não era tanto de natureza religiosa, mas sim pragmática e estratégica.
É bem conhecida a importância fundamental dos oligarcas no apoio à igreja moscovita.
Por exemplo, Vadym Novynskyi foi o principal financiador e lobista político da UOC-MP. Através de um sistema de financiamento ramificado, obteve influência directa sobre a hierarquia eclesiástica e combateu activamente a concessão do Tomos à Igreja Ucraniana. Atualmente, Novynskyi é acusado de traição ao Estado.
Igualmente significativa foi a influência dos magnatas dos media Dmytro Firtash e Serhiy Lyovochkin. Durante anos, usaram o seu canal de televisão “Inter” como uma poderosa ferramenta de propaganda, criando uma imagem positiva da UOC-MP e promovendo ideias de “unidade espiritual” com Moscovo.
Nos últimos anos, antes da invasão em grande escala, a figura central na promoção dos interesses da igreja moscovita foi Viktor Medvedchuk, compadre do ditador russo. Este combinava fluxos políticos, financeiros e mediáticos para apoiar a UOC-MP. O seu grupo mediático, que incluía os canais de televisão “112 Ucrânia”, ZIK e NewsOne, tornou-se a verdadeira boca-de-arma do Patriarcado de Moscovo.
As emissões estavam cheias de comentários de peritos, sacerdotes e políticos leais à UOC-MP. Medvedchuk usava sistematicamente os seus media para espalhar narrativas do Kremlin, disfarçadas em linguagem religiosa. Oksana Marchenko, esposa de Medvedchuk, ao aproveitar o seu estatuto de apresentadora de televisão e mais tarde como autora do pseudo-documentário “Peregrina”, promovia activamente ideias do cristianismo ortodoxo radical ao estilo moscovita, disfarçando propaganda política em histórias sobre “milagres”.
Estas figuras garantiram a existência da UOC-MP e promoveram os interesses da igreja moscovita na Ucrânia durante décadas, assegurando a cobertura estratégica dos interesses da Rússia. No entanto, a infraestrutura material da igreja apoiava-se em empresários de menor dimensão, responsáveis por regiões específicas ou por áreas particulares do trabalho religioso.
Como é que os lobistas regionais lançaram as bases da infraestrutura da igreja?
Se não eras oligarca, mas querias ser uma pessoa respeitada no círculo dos membros do “Partido das Regiões” ou agradar a Moscovo, havia várias opções para apoiar o Patriarcado de Moscovo. Ou “patrocinar”: construir um templo (uma catedral, uma igreja) com os teus próprios recursos, ou financiar várias atividades “religiosas”. Idealmente, combinar ambos. Era uma forma de ganhar estatuto social, a lealdade dos russos e o apoio dos adeptos locais mais influentes da igreja.
A seguir, alguns exemplos marcantes desses patrocinadores.
Em Kyiv, Alexey Omelyanenko, banqueiro e construtor, desempenhou um papel chave na promoção dos interesses da UOC-MP. De 2008 a 2014, foi líder do grupo do “Partido das Regiões” no conselho municipal de Kyiv. Segundo o ex-deputado Alexey Davydenko, Omelyanenko foi o principal lobista na atribuição de dezenas de terrenos para a construção de igrejas e capelas do Patriarcado de Moscovo. Muitas vezes, isto ocorreu com violação dos procedimentos, em parques e jardins públicos, provocando protestos das comunidades locais. Omelyanenko é também amigo de longa data do controverso ex-reitor da Lavra, Pavlo Lebediev; moravam perto um do outro e até sentavam-se lado a lado nas sessões do conselho municipal de Kyiv.
O parceiro de Omelyanenko, Vasyl Horbal, ex-deputado e ex-governador da Região de Lviv, também esteve ativamente envolvido no financiamento de projetos da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia. Desde 2007, Horbal e Omelyanenko foram membros do conselho da organização “Dia do Batismo da Rússia”, que organizava celebrações religiosas na capital sob o patrocínio da Igreja Ortodoxa Russa, tendo também trazido juntos para Kyiv o então leal ao Kremlin Andrey Kuraiev.
Mais tarde, Horbal apresentou uma queixa contra Omelyanenko, acusando-o de roubo de 25,9 milhões de grívnias (UAH). Relações complexas.
Em Odesa, a igreja moscovita contou durante muitos anos com o apoio de Serhiy Kivalov. Este não só apoiava a UOC-MP como político, mas também foi organizador e patrocinador da construção da Igreja da Santa Mártir Tatiana directamente no território da sua academia de direito, fundindo propaganda religiosa com educação. Pela sua activa defesa da igreja moscovita, recebeu quase todas as condecorações eclesiásticas possíveis. Uma fonte significativa de recursos para a UOC-MP continua a ser o actual Presidente da Câmara de Odesa, Trukhanov. Por exemplo, em 2020, Trukhanov entregou pessoalmente a Onufriy documentos de propriedade da terra onde se encontra o Mosteiro Sviato Ivesrskii (Mosteiro Sagrado Iverskii). Mesmo após a invasão em grande escala, tanto Kivalov como Trukhanov continuam a impedir a desrusificação da cidade.
Em Zaporizhzhia, o principal patrono da UOC-MP durante décadas foi Vyacheslav Bohuslaiev, longo dirigente da empresa estratégica “Motor Sich”. Bohuslaiev financiou a construção e restauração de igrejas, recompensou generosamente o clero local e usou a sua influência para promover os interesses da igreja moscovita na região. A sua actividade foi tão significativa que recebeu numerosas condecorações eclesiásticas diretamente da Igreja Ortodoxa Russa. Ao mesmo tempo, colaborou com a Rússia também na esfera militar.
Em Kharkiv, os interesses da UOC-MP foram promovidos durante anos por Mykhailo Dobkin e os seus amigos empresários. Dobkin e companhia financiavam a construção de igrejas, promoviam procissões religiosas e traziam padres russos para Kharkiv. Mesmo após a invasão em grande escala, em abril de 2022, Dobkin foi ordenado diácono pelo metropolita de Kharkiv, Onufriy. Dobkin continua a participar regularmente nas cerimónias religiosas da UOC-MP.
Empresários ligados ao “Partido das Regiões”: dinheiro para a igreja e a igreja para proteger os próprios interesses
Outro grupo de patrocinadores da UOC-MP são empresários, muitas vezes com um passado criminoso, que não se dedicavam ao lobby sistemático dos interesses da igreja moscovita como Omelyanenko ou Kivalov, mas usavam o “factor espiritual” para alcançar os seus objectivos comerciais, por exemplo, para construir boas relações com políticos locais pró-Rússia ou com russos.
Por exemplo, o proprietário da rede de postos de combustível “BRSM-Nafta”, Andriy Biba, não só financiava a construção de igrejas, como também beneficiava da protecção da organização paramilitar “Miriani”, estreitamente ligada ao recurso propagandístico “União dos Jornalistas Ortodoxos”. A SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) suspeita que ambas as estruturas trabalham para o FSB, o que revela uma perigosa fusão entre negócios, igreja e os serviços secretos do inimigo.
A antiga deputada influente do “Partido das Regiões” e proprietária do grupo agroindustrial “Svitanok”, Tetiana Zasukha, transformou a sua aldeia natal Kovalivka num “enclave ortodoxo”, ao construir o Mosteiro Stavropégico de Santa Anastácia (Mosteiro Feminino de Sanata Anastasiia). É simbólico que, em Janeiro de 2022, um mês antes da invasão, o próprio líder da UOC-MP, Onufriy, tenha visitado o mosteiro para uma celebração religiosa.
Mykola Koretskyi, deputado do conselho regional de Poltava e proprietário da fábrica “Alfatex”, não só apoiava activamente a UOC-MP, como também participou no Sínodo da Igreja em 2022 e, segundo dados de investigadores, mantinha empresas activas na Rússia mesmo após o início da guerra em grande escala.
Mykola Lavrenko, presidente da empresa VS Energy, ligada a empresários russos, foi o benfeitor da imponente Catedral dos 12 Apóstolos no distrito de Osokorky de Kyiv.
Yuriy Yerinyak, conhecido nos círculos criminais pela alcunha “Moldovan”, não é apenas um mecenas, mas também o líder oficial da comunidade religiosa da Paróquia Uspenska da UOC-MP no distrito de Darnytskyi, em Kyiv.
Crónica da traição e o caminho para a independência espiritual
O dinheiro dos oligarcas e empresários ucranianos tornou-se o combustível para o sistema ramificado de influência do Patriarcado de Moscovo. Foi um investimento de longa data na criação de uma base ideológica para a agressão russa. Uma parte significativa dos patrocinadores e lobistas da UOC-MP continuou a financiar e a proteger a igreja moscovita mesmo depois de 2014, quando a atitude da Rússia em relação à Ucrânia se tornou evidente. Formou-se uma espécie de aliança: Moscovo fornecia a ideologia e o apoio político; os oligarcas e políticos locais davam o dinheiro, a cobertura mediática e os recursos administrativos. Em troca, a igreja garantia-lhes a lealdade dos eleitores e “abençoava” o seu estatuto. Durante anos, esta rede foi diluindo a identidade ucraniana, promovendo mentiras sobre os “povos irmãos” e criando, na mente de milhões de ucranianos, uma realidade alternativa conveniente ao Kremlin.
As acções destas pessoas conduziram directamente à guerra. Os russos estavam convencidos de que poderiam apoiar-se numa rede de padres e fiéis leais. A luta pela independência espiritual revelou-se tão importante quanto a luta na linha da frente. Os nomes daqueles que, durante anos, construíram este cavalo de Troia devem permanecer na memória como um aviso. A purificação total dos colaboradores de batina e dos seus patrocinadores é uma condição indispensável para a nossa vitória.
Posfácio ou Epílogo
No contexto dos factos acima mencionados, relembramos a grande série de investigações CYBINT intitulada FrolovLeaks, publicada pela Comunidade Internacional Voluntária de informação InformNapalm em cooperação com a Ukrainian Cyber Alliance.
E ao analisar a profunda influência da Igreja Ortodoxa Russa sobre a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo na Ucrânia, é imprescindível recordar esta fotografia que regista a ligação profunda e recíproca entre o exército russo e a igreja.
A 8 de Novembro de 2021, poucos meses antes da invasão em larga escala, Artemy, arcebispo metropolitano de Khabarovsk e da região de Amur, condecorava o então comandante da 64.ª Brigada Motorizada das Forças Armadas da Federação Russa (unidade militar 51460), tenente-coronel Azatbek Omurbekov, com uma distinção episcopal, abençoando-o para uma “cruzada” contra a Ucrânia. Meses depois, Omurbekov e os seus subordinados cometeriam crimes de guerra em massa em Bucha, na região de Kyiv.
Após ter sido identificado por voluntários investigadores da InformNapalm, este criminoso de guerra recebeu nos meios de comunicação anglófonos o apelido de “O Carniceiro de Bucha” (the “Butcher of Bucha“) e foi incluído nas listas de sanções pessoais de numerosos países em todo o mundo.
No entanto, depois de regressar da Ucrânia a Khabarovsk, apesar de Omurbekov já ter passado por vários cargos, este continua a aparecer regularmente ao lado do Artemy, arcebispo metropolitano de Khabarovsk e da região de Amur, bem como de outras figuras da Igreja Ortodoxa Russa. E isso diz muito sobre os verdadeiros valores morais da igreja russa e dos seus apoiantes, tanto na Rússia como fora dela.
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