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Ministério russo anuncia serviço de “adido digital” que será implantado em 16 países

A 7 de Fevereiro, o Ministério do Desenvolvimento Digital, Comunicações e Media de Massa da Federação Russa anunciou [1] a criação de um serviço de “adido digital”. Oficialmente, este serviço promoverá produtos de TI russos no mercado internacional, embora nem as publicações russas acreditem nisso, chamando abertamente essa iniciativa de “a nova frente da oposição da Federação Russa ao Ocidente” (arquivo [2]). Foi anunciado que em 2022 os “adidos digitais” russos começariam a trabalhar em 16 países, incluindo Alemanha, Turquia, Brasil, Vietname, Egito, Índia, Irão, Cazaquistão, Uzbequistão, Cuba, Malásia, Emirados Árabes Unidos, Singapura, Tailândia, África do Sul, e Coreia do Sul. E se os resultados iniciais forem bons, em 2024, a geografia da presença russa está planejada para se expandir para 28 países.

É sabido que um número significativo do corpo diplomático russo no exterior está envolvido em espionagem e medidas activas de influência. Portanto, pode-se esperar que os “adidos digitais” usem a implementação de produtos de software russos como oportunidades de espionagem e a criação de backdoors para interromper os sistemas de informação desses países.


Ler também: Kaspersky’s case and cyber espionage: how Russia opened the Pandora’s box [3]


 

Exemplos de operações cibernéticas da Federação Russa

Vale ressaltar que grupos de hackers russos afiliados ao Estado Maior das Forças Armadas Russas, ao Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia e ao FSB foram repetidamente expostos em operações cibernéticas [4] contra vários países, incluindo Ucrânia, Polónia, Grã-Bretanha, EUA, Estônia , Geórgia, França, Alemanha e outros. Uma característica dessas operações foi a interferência em sistemas de informação e infraestrutura crítica e tentativas de influenciar eleições ou a situação política nesses países. Recordemos alguns exemplos.

Ataques nos Estados Unidos

Em 2016, houve relatos do grupo hacker russo APT29, que está directamente ligado ao Serviço de Inteligência Estrangeiro da Rússia, interferindo nos sistemas de informação do Comité Nacional Democrata dos EUA. Hackers russos tentaram repetidamente interferir nas eleições nos EUA.

Tentativas de roubar dados sobre o desenvolvimento de vacinas contra COVID-19

Os serviços especiais russos também tentaram interromper o desenvolvimento de vacinas COVID-19 e roubar materiais de pesquisa para usar numa vacina híbrida e apresentar a Federação Russa como “salvadora da humanidade” (isso foi para ajudar a suspender as sanções pela ocupação russa da Crimeia e sua agressão contra a Ucrânia em Donbas). Em 2020, a Reuters publicou [5] uma declaração do Centro Nacional de Segurança Cibernética da Grã-Bretanha (NCSC [6]) de que hackers russos tentaram roubar pesquisas sobre vacinas e tratamentos COVID-19 de instituições académicas e farmacêuticas em todo o mundo. Uma declaração coordenada do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá identificou o grupo APT29, também conhecido como Cozy Bear, como o autor dos ataques.

Tentativas de roubar dados da investigação do acidente do voo MH17

Sabe-se que o grupo Cozy Bear conseguiu penetrar [7] nos sistemas da Academia de Polícia Holandesa em 2017. O ataque foi observado pelo serviço secreto holandês AIVD, que alertou a polícia sobre o hack. Hackers russos tentaram roubar dados relacionados com a investigação do acidente do voo MH17 da Malaysia Airlines. O avião foi abatido em 17 de julho de 2014 no céu sobre a parte ocupada pela Rússia da Ucrânia por um sistema de defesa antiaérea russo Buk, que pertencia à 53ª Brigada de Mísseis Antiaéreos das Forças Armadas Russas. Em 24 de maio de 2018, as autoridades da Austrália e da Holanda acusaram oficialmente a Rússia de destruir um avião de passageiros no céu sobre Donbas.

Ataques cibernéticos a instituições estatais da Ucrânia em Janeiro de 2022

Desde 2014, serviços especiais russos e grupos de hackers afiliados a eles têm realizado activamente suas próprias operações cibernéticas contra sistemas de computador ucranianos, nomeadamente, realizam sabotagem de computadores visando a infraestrutura crítica da Ucrânia, sites do governo e meios de comunicação de massa ucranianos.

Outro ataque em grande escala ocorreu na noite de 13 para 14 de Janeiro de 2022. Hackers russos tentaram realizar uma operação sob uma bandeira falsa para prejudicar as relações amistosas entre a Ucrânia e a Polónia. O Representante Permanente da Polónia junto à UE, embaixador Andrzej Sados, disse [8] que o governo polaco tinha informações de que um grupo de hackers afiliados aos serviços de inteligência russos havia atacado sites ucranianos.

Conclusão

A guerra cibernética não declarada já acontece há muitos anos. E os serviços especiais da Federação Russa estão a atacar activamente não apenas a Ucrânia, mas também os países da UE e da NATO. No entanto, no contexto de crescentes ameaças cibernéticas, há também um aumento constante na força da segurança cibernética, que recebe cada vez mais atenção. Portanto, hackers e serviços de inteligência russos nem sempre conseguem o acesso a informações e sistemas importantes. Às vezes, o acesso físico ou a implantação de software com backdoors integrados são necessários para uma invasão bem-sucedida. É possível que seja esse o objetivo do novo serviço de “adido digital” da Federação Russa, que começará a operar em 2022 em 16 países simultaneamente. Este “serviço especial” fará lobby para o uso de software russo e a compra de produtos russos de TI. Para a Rússia, esta não é apenas uma oportunidade para melhorar suas finanças, mas também uma rota adicional para ações ofensivas no ciberespaço.

Ver mais informação:

Tradução: Helena Sofia da Costa. Distribuição e partilha com referência à fonte são bem-vindas! O InformNapalm [16] não tem nenhum apoio financeiro do governo de nenhum país ou doador, os únicos patrocinadores do projeto são os seus voluntários e leitores. Também pode ajudar o InformNapalm com uma contribuição através da plataforma Patreon [17].

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