“Dia da Vitória” expõe hoje uma dolorosa dicotomia. Como pode um país da União Europeia, que não só proclama a democracia, o humanismo e a defesa da liberdade, como também afirma reger-se por esses valores, tolerar no seu seio comunidades que apoiam abertamente a agressão russa e o chamado “mundo russo” (em russo: “русский мир”, “russkiy mir”)?
Em Portugal, continuam a existir vários círculos russos e pró-russos, bem como apoiantes de Vladimir Putin, que justificam a guerra, difundem propaganda russa e chegam mesmo a criticar cidadãos portugueses pelo seu apoio à Ucrânia. Não se trata de uma “opinião diferente”, nem de liberdade de expressão no sentido democrático do termo; trata-se da tolerância de uma ideologia que trouxe morte, ocupação e sofrimento a milhões de ucranianos.
A redacção da InformNapalm já havia dado a conhecer aos leitores a actividade da Igreja do Patriarcado de Moscovo em território português, bem como a obtenção de autorização para a aquisição de um amplo terreno numa zona costeira de elevado valor na área de Lisboa.
No entanto, a actividade de propagandistas do Kremlin e de meios pró-Kremlin não se limita a isso. Por exemplo, o hino da União Soviética chegou a ser entoado em voz alta no dia 1 de Maio nas ruas de Lisboa.
A atração pela cultura soviética e pelo regime de Estaline, responsável pela morte de milhões de pessoas, o que representa, afinal? Cegueira política? Ingenuidade? Ou uma forma de valorização de ideias associadas a regimes ditatoriais? São questões, em grande medida, de natureza retórica.
“Perversão de uma ideia”
O mundo já incorporou o conceito de “pobiedobéssie” (em russo: победобесие). Trata-se de um termo depreciativo usado para descrever o culto em torno do chamado “Dia da Vitória” na Rússia contemporânea. A palavra resulta da junção de “vitória” (pobeda) e “obsessão”, “fanatismo” (bessie), sugerindo um estado de exaltação quase fanática. Este fenómeno traduz-se num culto da morte e na glorificação da perda de vidas humanas ao serviço do regime do Kremlin, apresentada como motivo de orgulho coletivo.
*Nota do autor
O termo russo “pobedobessie” (em russo: победобесие) é um neologismo pejorativo usado de forma crítica para descrever a transformação do chamado “Dia da Vitória” na Rússia num culto altamente militarizado e emocionalmente carregado. Neste contexto, a memória da Segunda Guerra Mundial é frequentemente instrumentalizada pelo Estado para fins de propaganda, exaltação militar e legitimação política.
Quanto à sua origem, a palavra resulta da junção de “pobeda” (vitória) e do elemento “-bessie” (-бесие), associado a uma ideia de obsessão ou fanatismo. Por sua vez, “bess” (бес) em russo significa “demónio”, “espírito maligno” ou “diabo”, na tradição religiosa e folclórica eslava. O sufixo “-бесие” é utilizado para descrever estados de fanatismo, obsessão ou “posse” simbólica, frequentemente com uma conotação negativa ou patológica.
Assim, “pobedobessie” pode ser traduzido, de forma literal e interpretativa, como “posse demoníaca”, fanatismo extremo, “obsessão fanática pela vitória”, sugerindo um comportamento coletivo marcado por uma dimensão quase ritualizada ou irracional.
Na língua russa, construções com o sufixo -бесие são por vezes usadas de forma irónica ou crítica, como em:
tsarobesie (culto do czar);
outros usos satíricos semelhantes em contexto político ou social.
Estamos perante uma militarização agressiva da memória da Segunda Guerra Mundial e a transformação da tragédia histórica e da lembrança dos mortos em instrumento de propaganda estatal. A isso soma-se a normalização de uma lógica de poder assente no lema “podemos repetir”, na exaltação da força militar e na nostalgia de uma grandeza imperial.
A ‘Marcha das viúvas’ da chamada ‘operação militar especial’ (SVO)”
A Rússia utiliza a vitória conjunta das forças aliadas em 1945 para justificar a sua actual agressão contra países vizinhos como a Moldávia, a Geórgia e, neste momento, a Ucrânia. Moscovo procura impor a ideia de que possui um “direito especial” ao uso da violência, com base no papel da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Na Rússia, a memória da guerra deixa de ser um momento de luto e de homenagem às vítimas, transformando-se num instrumento de manipulação política, de militarização da sociedade e de culto do Estado.
Mais ainda, o lema “podemos repetir” (em russo: “можем повторить”) adquiriu um significado que, no contexto de um Estado de natureza claramente autoritária, assume contornos de exaltação da violência e do poder militar. Não se trata aqui da figura do defensor, mas da glorificação do agressor e do ocupante. Neste enquadramento, o 9 de Maio deixa de ser apenas sobre os “avôs que combateram” e passa também a ser associado aos soldados russos mortos na guerra contra a Ucrânia.
No que diz respeito ao 9 de Maio russo (importa recordar que grande parte do mundo civilizado assinala a vitória sobre o nazismo a 8 de Maio) este dia há muito que deixou de ser apenas uma data de memória daqueles que lutaram contra o nazismo.
Na Internet circulam, com frequência, fotografias e vídeos que mostram participantes de desfiles associados ao fenómeno do “pobedobéssie” em várias cidades da Federação Russa a transportar retratos de cidadãos russos mortos na guerra contra a Ucrânia, designada em Moscovo como “operação militar especial” (em russo: СВО, SVO).
Actualmente, o chamado “Regimento Imortal” (“Bessmertnyi Polk”) passou também a integrar familiares de pessoas enviadas para uma guerra de agressão contra a Ucrânia, filhos, irmãos ou maridos. Entre os retratos exibidos, surgem não apenas figuras ligadas à memória da Segunda Guerra Mundial, mas também indivíduos que morreram em território ucraniano na sequência da invasão russa.
Desde o início da invasão, em Fevereiro de 2022, estes desfiles passaram igualmente a incluir militares que participaram directamente na guerra contra a Ucrânia. Muitos desses retratos estão assinalados com o símbolo “Z”, associado às forças russas envolvidas na ocupação.
Deste modo, o que inicialmente era apresentado como uma homenagem aos combatentes da Segunda Guerra Mundial, foi sendo progressivamente reconfigurado, passando a incluir também os mortos numa guerra contemporânea de agressão. Neste contexto, a memória histórica é apropriada e reinterpretada à luz da actual política militar do Estado russo.
Quando a ideia se transforma em arma
Será que o cidadão europeu comum tem consciência disto? E, quando tem, que leitura faz dessa realidade?
Infelizmente, nem todos na Europa (e importa sublinhar a Europa, uma vez que a guerra russo-ucraniana decorre no próprio centro do continente) dispõem de instrumentos críticos suficientes para interpretar de forma clara a ameaça russa, tanto para a Ucrânia como para a própria Europa.
Após a vitória da União Soviética e a chamada “libertação”, aquilo que o regime soviético trouxe não foi liberdade, mas sim o sistema do Gulag. Auschwitz e Buchenwald não deram lugar à liberdade, mas sim a campos soviéticos, deportações, repressão e ocupação, não apenas no território da própria URSS, mas também nos países da Europa de Leste sob a influência do Pacto de Varsóvia.
Com o colapso da União Soviética, este fenómeno não desapareceu. Pelo contrário, transformou-se, enraizou-se e encontrou novas formas de expressão. Um regime totalitário cedeu lugar a outro, mantendo estruturas e lógicas de poder que persistem sob diferentes formas.
Eis o verdadeiro retrato do apoio a Putin e aos seus mitos sobre a guerra.
Em 2026, pela primeira vez, militares da Coreia do Norte participaram no desfile em Moscovo. Um facto que, ironicamente, pode ser “celebrado” pelos próprios russos. Talvez seja agora altura de começarem a aprender coreano.
Fotografia: Forbes
Entre o humanismo e a indiferença
Perante estes factos, a sociedade europeia deveria reflectir de forma mais profunda. Em caso algum deveria permitir que ideias associadas ao putinismo ou ao estalinismo ganhem espaço ou legitimidade nos seus territórios nacionais.
Sim, a sociedade de Portugal deve também reflectir de forma séria sobre quem integra no seu espaço público e sobre os valores que permite que se enraízem. Não é compatível construir uma democracia assente no humanismo e na liberdade enquanto se ignoram ou relativizam posições que apoiam a agressão, o imperialismo e a justificação da morte de civis inocentes.
Há um número significativo de cidadãos portugueses que manifesta apoio aberto à Rússia. A dimensão deste fenómeno é, para muitos, surpreendente, falando-se de milhares e, possivelmente, de centenas de milhares de pessoas.
Nas redes sociais, em particular no Facebook, este discurso é visível de forma recorrente. Não se trata de “bots”, contas automatizadas, mas de utilizadores reais: professores universitários, jornalistas, dirigentes sindicais e até responsáveis políticos envolvidos na discussão de programas de desenvolvimento do país, tanto na política interna como externa.
Neste espaço público digital, repetem-se narrativas sobre “nazis ucranianos”, sobre um “presidente ditatorial” na Ucrânia e sobre a suposta “grandeza da Rússia e de Vladimir Putin”.
A blogger Tita Alvarez, com cerca de 12 mil seguidores e quase 5 mil amigos, é um dos exemplos mais expressivos deste fenómeno. O seu caso é revelador em vários níveis, desde os textos e imagens publicados até à rede de contactos, que reproduz em grande medida o mesmo discurso, marcado por narrativas de propaganda pró-Kremlin. As publicações na sua página reproduzem, em português, declarações da embaixada russa em Portugal, com conteúdos que enaltecem Vladimir Putin e a chamada “Armada Vermelha”.
E não se trata de uma plêiade da velha guarda “leninista”, mas sim de uma geração jovem que, alegadamente, construirá o futuro da Europa.
É provável que esta geração seja influenciada por figuras apresentadas como “professores”, como Dorinda Castro, cujo perfil indica ligação à “Universidade de Lisboa”. Na página em causa surgem referências ao “9 de Maio”, bem como manifestações de apoio à agressão militar da Rússia e à anexação ilegal da Crimeia e das chamadas “repúblicas populares”, apresentadas como se fossem conquistas legítimas do Estado agressor.
Mais uma vez, surgem milhares de “amigos” com os mesmos valores, abertamente pró-Putin. Em muitos perfis repetem-se as mesmas expressões: “Nova Rússia”, (em russo: “Новороссия”, “Novorossiya”) e “regime do Maidan”, como se fossem copiadas de um único molde.
Trata-se de uma exemplar “continuidade de gerações”, sem grande surpresa, tão bem alinhada e assente na reprodução das mesmas narrativas.
João Gomes, com 52 mil seguidores, refere-se à “nova região da Federação Russa”, apresentando Mariupol, cidade ocupada e severamente destruída, como parte das “novas regiões da Federação Russa”.
E também aqui surge o “Regimento Imortal” (“Bessmertnyi Polk”).
Miguel Castelo Branco, mestre em Cultura e Política pela Universidade Nova de Lisboa, é mais um académico ligado a uma Universidade lisboeta. Trabalha na Fundação Calouste Gulbenkian, a maior e mais rica fundação de Portugal, desempenhando funções no domínio cultural, sob bandeiras russas.
Mário Cunha, também professor universitário, leciona no ISLA Gaia. Transmite, por assim dizer, “o saber, o bem e o eterno” sob símbolos associados ao Estado russo. Em qualquer dos casos, colegas, amigos e o círculo académico destas pessoas conhecem estas posições e, ou as apoiam, ou optam por as tolerar, frequentemente em nome de uma noção de “tolerância” entendida de forma ampla e indiscriminada.
“Valores do Kremlin sob o som do oceano”
Esta lista poderia continuar por muito mais tempo. Ainda assim, há um ponto essencial que não pode ser ignorado: os próprios cidadãos russos e os seus simpatizantes.
Segundo dados oficiais, vivem em Portugal cerca de cinco mil cidadãos russos. Este número, no entanto, não inclui aqueles que já adquiriram a nacionalidade portuguesa, cujos dados não estão, infelizmente, disponíveis em fontes públicas.
É precisamente esta comunidade que, segundo esta leitura, pode representar um risco acrescido para um país de pequena dimensão. Isto porque, em 14 de Abril de 2026, a Duma Estatal da Rússia aprovou, em primeira leitura, um projecto de Lei sobre a aplicação extraterritorial de medidas militares para “proteger cidadãos russos” de tribunais estrangeiros, incluindo referências a tribunais internacionais e à chamada “shadow fleet” (“frota paralela”).
Desta forma, o regime russo passaria a dispor, de acordo com essa proposta, de um enquadramento legal que poderia ser interpretado como permitindo a intervenção de forças russas em países onde cidadãos russos fossem alegadamente alvo de perseguição, detenção ou processos judiciais.
A lista de russos com posições agressivas e apoiantes de Putin é igualmente extensa, mas vale a pena destacar apenas alguns exemplos mais expressivos.
O grupo de Facebook Новости Португалии (“Noticias de Portugal”), fundado por Maksim Danich (Максим Данич), tem sido referido em várias investigações jornalísticas devido a comportamentos considerados agressivos na defesa de Vladimir Putin e a publicações críticas ou ofensivas dirigidas a cidadãos ucranianos.
O seu perfil encontra-se, infelizmente, privado, mas a actividade diária no grupo “Noticias de Portugal” (“Новости Португалии”), actualmente público, permite traçar facilmente o seu posicionamento.
Foi precisamente a este caso que o jornalista português Luís Ribeiro, se referiu, tendo descrito publicamente Danich como um alegado agente russo em território português.
Nesta captura de ecrã surgem ameaças dirigidas a cidadãos portugueses que combateram pela Ucrânia.
Segue-se, em baixo, um ataque de natureza xenófoba dirigido ao antigo primeiro-ministro de Portugal e, desde 1 de dezembro de 2024, presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Foi o próprio Danich quem divulgou no Facebook o anúncio da “Marcha do Regimento Imortal” em Lisboa, tema que já tinha sido parcialmente abordado na análise anterior.
Assim, a marcha associada ao fenómeno do “pobedobéssie” acabou por se realizar. Os ucranianos, naturalmente, não ficaram indiferentes.
Aqui estão aqueles que apreciam o sol português e, em paralelo, aderem à narrativa do Kremlin e do regime de Putin. A coordenadora do “Regimento Imortal” em Lisboa é Zhanna Kuncheva, que no Facebook utiliza o nome Janna Gorea.
Pós-escrito ao “humanismo cansado”
A tolerância não deve ser usada como escudo para a propaganda do ódio e da violência. Os valores europeus perdem o seu sentido se a sociedade não estiver disposta a defendê-los não apenas no discurso, mas também na prática.
Não é possível defender os valores europeus e, ao mesmo tempo, conviver de forma indiferente com quem apoia o agressor. O silêncio e a indiferença nestas matérias são também formas de escolha. O perigo desta dicotomia na Europa não reside apenas na divergência de opiniões, mas no facto de uma fractura social profunda poder enfraquecer a capacidade de acção conjunta dos países democráticos em momentos de crise.
Uma sociedade dividida torna-se mais vulnerável à desinformação, e tanto as notícias falsas como a propaganda ganham maior eficácia. No geral, este fenómeno corrói a confiança nos media, na ciência, nos processos eleitorais e nas instituições do Estado. Acaba por se formar um ciclo que se autoalimenta.
Uma crise moral e de valores abre espaço para que a Rússia explore o princípio do “dividir para reinar”. Vários estudos e investigações jornalísticas têm vindo a apontar para um aumento das chamadas ameaças híbridas na Europa.
Neste contexto, a percepção de hesitação e de falta de coesão política, ou a dificuldade da Europa em afirmar-se como uma frente unida perante o agressor, é frequentemente interpretada por regimes autoritários como um sinal de fraqueza. Isso aumenta o risco de novos conflitos, ciberataques, interferência em processos eleitorais e outras formas de guerra híbrida e convencional.
Por isso, impõe-se uma reavaliação urgente não apenas dos discursos dirigidos às audiências internas e externas, mas também uma análise rigorosa e a adopção de medidas adequadas por parte das autoridades competentes e dos serviços de informação.
Só a conjugação de esforços poderá responder a estas ameaças e reforçar a defesa da democracia e do Direito Internacional.
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