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Lista dos Contratadores Secretos do Kremlin: Empresas Russas que Lucram com os Territórios Temporariamente Ocupados da Ucrânia

Hacktivistas ucranianos da 256.ª Divisão de Assalto Cibernético acederam à correspondência entre ministérios russos e expuseram um esquema de enriquecimento oligárquico em larga escala nos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia. O grupo obteve uma lista secreta de quase 200 empresas russas envolvidas no chamado “Projecto Especial de Infraestruturas” – essencialmente um esquema para canalizar fundos públicos russos para empresas com ligações privilegiadas, sob o pretexto de “reconstrucção.”

Voluntários da Comunidade Internacional Voluntária de Informação InformNapalm analisaram estes dados e concluíram que, por detrás destes projectos de grande visibilidade, existe uma complexa rede de empreiteiros e empresas fictícias, criada não só com o objectivo de desviar milhares de milhões, mas também de ocultar os verdadeiros beneficiários – grandes grupos empresariais russos que, até agora, têm escapado às sanções internacionais.

Esta investigação revela como a Rússia procura legalizar o branqueamento de capitais e o enriquecimento ilícito nos territórios ocupados, transformando crimes de guerra num negócio altamente lucrativo.

Porque é que a Rússia precisa do “Projecto Especial”?

Após a invasão em larga escala em 2022, o Kremlin enfrentou dois grandes desafios:

  1. Caos administrativo
    Os territórios ocupados não estavam integrados no sistema administrativo e financeiro da Rússia, o que criou grandes dificuldades ao nível da gestão e do controlo dessas regiões.
  2. Reticência das grandes empresas
    As grandes empresas russas mostravam-se relutantes em operar abertamente nos territórios ocupados, com receio de sanções e na esperança de, um dia, poderem retomar relações normais com o Ocidente.

A solução foi encontrada num modelo já testado na Crimeia

Como funciona o esquema: o modelo da Crimeia e a promessa de anonimato

O mecanismo que tem vindo a ser aplicado na Crimeia desde 2014 é simples e cínico.

Para coordenar este esquema, foi criado em Maio de 2022, no âmbito do Ministério da Construção da Federação Russa, um departamento específico para a “implementação do Projecto Especial de Infraestruturas” (PEI).

A ilusão da “reconstrução” vs a realidade

Na verdade, não há nenhum milagre económico em curso. O dinheiro do orçamento russo é distribuído entre empresas russas. Os trabalhadores são, na sua maioria, trazidos da própria Rússia. Parte dos seus salários é gasta localmente, e as empresas empregadoras contribuem com alguns impostos para os orçamentos locais, criando assim a aparência de uma “recuperação económica”.

Na essência, trata-se de um sistema fechado, em que o dinheiro dos contribuintes russos acaba nas mãos de corporações ligadas ao Kremlin, enquanto os territórios ocupados servem apenas de cenário para narrativas propagandísticas.

Este artigo faz parte de uma série de investigações CYBINT. Investigações relacionadas:

O que é o Projecto Especial de Infraestruturas e como funcionam os subsídios russos para a manutenção dos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia?

Logo no início da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, as autoridades russas depararam-se com a questão da manutenção dos chamados “novos territórios”. Um dos principais desafios enfrentados pelos ocupantes é o facto de os territórios ucranianos não estarem integrados nos sistemas administrativos, financeiros e outros da Federação Russa. De acordo com um relatório do Centro de Resistência Nacional sobre a situação nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia durante a primeira metade de 2025, esta questão continua por resolver até aos dias de hoje, dificultando a gestão eficaz dessas regiões.

Outro obstáculo significativo prende-se com a atitude das grandes empresas russas, que continuam a evitar um envolvimento directo nos territórios temporariamente ocupados, por receio de sanções e na esperança de poderem retomar relações comerciais com os mercados ocidentais no pós-guerra.

Perante este cenário, após 2022, o Kremlin decidiu aplicar nestes territórios o mesmo modelo usado na Crimeia: uma integração administrativa progressiva acompanhada de um financiamento em larga escala de projectos de infraestruturas através de mecanismos de contratação pública. Esta abordagem alimenta não só a propaganda sobre a “reconstrução” como também cria uma ilusão de crescimento das receitas locais. Na realidade, esse aparente crescimento resulta sobretudo do consumo local feito por trabalhadores temporariamente destacados para essas regiões e do pagamento de alguns impostos locais por parte das empresas envolvidas.

Para incentivar a participação, às empresas é prometido anonimato. Os contratos públicos são classificados como confidenciais, e as empresas são incentivadas a operar nos territórios ocupados através de empresas-fantasma, que não podem ser ligadas aos seus verdadeiros proprietários.

Este sistema não traz melhorias reais às economias locais, uma vez que todo o dinheiro é distribuído entre entidades jurídicas russas, e os trabalhadores nos locais são, na sua maioria, também provenientes da Rússia.

O PEI: anonimato máximo, supervisão mínima

Em Maio de 2022, o Ministério da Construção russo criou um departamento para a “implementação do Projecto Especial de Infraestruturas”, com o objectivo de distribuir os fundos nos territórios recentemente ocupados.

O PEI é um mecanismo para utilizar o dinheiro destinado aos territórios ocupados da Ucrânia com o máximo anonimato. Não existem relatórios detalhados sobre o PEI disponíveis publicamente, nem uma lista específica das empresas participantes. No entanto, a 256.ª Divisão de Assalto Cibernético recuperou dados sobre os contratantes e subcontratantes do PEI e entregou-os à InformNapalm.

Que listas de empresas obtiveram os hacktivistas? Em que é que diferem?

Os departamentos responsáveis pela implementação do PEI nos territórios ocupados foram criados não só no Ministério da Construção russo. Segundo a revista de negócios russa RBC, até ao final de 2022, “pelo menos seis organismos governamentais e 55 regiões da Federação Russa” estavam a contratar trabalhos nos territórios ocupados da Ucrânia. Entre eles destacam-se o Ministério da Construção, o Ministério da Energia, o Ministério dos Transportes, o Ministério da Defesa (através de entidades jurídicas subsidiárias criadas sob os ministérios), bem como a empresa estatal Avtodor e o Fundo de Desenvolvimento Territorial.

As autoridades russas recusam divulgar os nomes dos contratantes e, desde 2022, todas as dotações orçamentais relevantes foram classificadas e são geridas através da respectiva secção do orçamento estatal russo.

As duas listas que hoje publicamos contêm as empresas aprovadas pelo Ministério da Construção russo para trabalhar nos territórios ocupados da Ucrânia (a primeira lista foi elaborada em novembro de 2022) e a lista de contratadores do Fundo de Desenvolvimento Territorial (a segunda lista foi elaborada em setembro de 2024).

A primeira lista faz parte de uma carta do Primeiro Vice-Ministro da Construcção da Federação Russa, Alexander Lomakin, dirigida a organizações autorizadas a “restaurar e construir infraestruturas no âmbito do PEI.” As entidades são obrigadas a reportar o número de trabalhadores e equipamento especial que podem mobilizar para os projectos. Esta carta foi enviada por email a 99 empresas, cujos nomes constam da lista.

A segunda lista contém os contratantes do Fundo de Desenvolvimento Territorial russo que realizam trabalhos nos territórios ocupados da Ucrânia no âmbito do PEI. A carta foi enviada em nome de outro Vice-Ministro da Construção da Federação Russa, Valery Leonov.

As empresas foram solicitadas a ligar-se ao sistema automatizado de reporte para a execução dos contratos nos territórios ocupados da Ucrânia até, no máximo, 1 de Outubro de 2024. O pedido foi enviado a 111 empresas, cujos nomes foram indicados.

Surpreendentemente, há quase nenhuma sobreposição entre os dois documentos. Apenas cinco nomes aparecem em ambas as listas: PTK LLC [russo: ООО “ПТК”], NIC PS LLC [russo: ООО “НИЦ ПС”], Stroyputizyskaniya LLC [russo: ООО “Стройпутьизыскания”], Transproekt JSC [russo: АО “Транспроект”] e Interline Engineering LLC [russo: ООО “Интерлайн Инжиниринг”]. 

Além disso, a segunda lista inclui 11 departamentos russos (ministeriais, fundos, agências autónomas, etc.) que são administradores de fundos e não contratadores (referidos no final da lista). No total, temos uma lista com 194 empresas que operam ilegalmente nos territórios ocupados da Ucrânia. Um número significativo delas oculta esta atividade, e apenas algumas foram alvo de qualquer tipo de sanções.

Uma análise mais detalhada das listas revela que a segunda lista (contratadores do Fundo de Desenvolvimento Territorial) inclui empresas significativamente maiores do que a primeira. Em particular, pelo menos quatro delas estão classificadas como empresas sistemicamente importantes pelo Ministério da Economia russo: VAD JSC [russo: АО “ВАД”], Avtodor-Engineering LLC [russo: ООО “Автодор-инжиниринг”], DSK LLC [russo: ТОВ “ДСК”], Rostelecom PJSC [russo: ПАО “Ростелеком”].

Como as grandes empresas escondem as suas operações nos territórios ocupados da Ucrânia

A “R-Stroy LLC” está listada como número 67 na lista de contratadores do Fundo de Desenvolvimento Territorial.

A “R-Stroy LLC” já é uma empresa bem conhecida. Em fevereiro de 2024, foi mencionada numa investigação do Financial Times intitulada Inside Mariupol: Russia’s new Potemkin Village. Os jornalistas do FT descobriram que a empresa pertence, na realidade, ao oligarca Alexey Repik, que também possui negócios nos EUA e na Alemanha. Repik negou qualquer envolvimento com a empresa. Por sua vez, a própria empresa mantém a sua presença nos territórios ocupados o mais discreta possível. Por exemplo, em Julho, a “R-Stroy” publicou uma oferta de emprego na sua página do VK, onde menciona enigmaticamente trabalho numa “instalação perto do Mar de Azov”. Prometem transporte até ao local de trabalho e três refeições diárias.

Agora, os documentos obtidos pela 256.ª Divisão de Assalto Cibernético incluem provas documentadas da presença da R-Stroy na lista dos principais contratadores que operam nos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia. Além disso, os hacktivistas recuperaram vários exemplos de contratos de subcontratação celebrados entre a R-Stroy e uma empresa chamada SK Sirius LLC [Rus: ООО “СК Сириус”], para a execução efetiva dos trabalhos em Makiivka e Mariupol, ambas ocupadas.

Os contratos especificam o âmbito e os locais do trabalho, e também revelam o esquema de aplicação dos fundos. O cliente, em nome do governo russo, é a Empresa Pública Sem Fins Lucrativos “Cliente Unificado” [russo: ППК “Единый заказчик”], enquanto a “R-Stroy” actua como contratador de primeiro nível. Contudo, esta última retém parte do dinheiro para si e contrata outra empresa para executar efetivamente o contrato.

A sede legal da SK Sirius fica na Crimeia ocupada. No entanto, segundo os dados disponíveis, este subcontratante não tem qualquer ligação à população dos territórios ocupados. A “SK Sirius” é uma típica empresa-fantasma. Conforme indicado no perfil da empresa num dos sites russos de informação empresarial, foi registada em 2023 (ou seja, no ano em que os contratos de subcontratação com a “R-Stroy” foram assinados) e está actualmente em processo de liquidação. O responsável por esta empresa, Petr Georgievich Bogatyrev, registou uma empresa privada em São Petersburgo já em 2013.

Por que é que as sanções contra estas empresas são importantes?

As listas expostas pelos hacktivistas são de grande valor porque identificam os verdadeiros intervenientes. Empresas-fantasma como a SK Sirius são apenas fachadas fáceis de criar e encerrar. Estas não possuem activos e não gerem orçamentos milionários.

O dinheiro real passa por empresas de primeiro nível, como a R-Stroy e quase 200 outras empresas das listas obtidas. Cada um destes contratadores é aprovado ao mais alto nível, até à Administração Presidencial Russa, e substituí-los é um processo burocrático longo. Os seus proprietários, como o oligarca Alexei Repik, são indivíduos próximos do Kremlin.

Estas empresas são o ponto fraco do esquema. Desenvolvem o seu negócio principal na Rússia, compram equipamentos ocidentais e são sistemicamente importantes para as suas indústrias. As sanções contra elas irão dificultar o acesso a tecnologias e crédito, o que inevitavelmente atrasará toda a maquinaria russa que está a desenvolver os territórios ocupados. Por isso é que o Kremlin tanto se esforça para manter esta informação secreta.

Infelizmente, até à data, apenas uma pequena parte destas empresas foi alvo de sanções. Por exemplo, a Miranda Media e a sua subsidiária Mirtelecom, principais prestadoras de serviços de telecomunicações nos territórios ocupados desde 2014, só foram incluídas na lista de sanções da UE no final de 2023.

A já mencionada “R-Stroy” só foi incluída nas listas de sanções da UE e da Suíça no verão de 2024, após a publicação de investigações jornalísticas sobre a sua participação em projectos em Mariupol. Talvez a única exceção seja a “VAD JSC”, que foi sancionada por vários países ainda antes da invasão em larga escala, devido à sua participação em projectos na Crimeia ocupada.

A maioria das empresas nas listas ainda não sofreu qualquer tipo de restrição, incluindo por parte da Ucrânia. Apelamos ao Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia e à comunidade internacional que tomem nota da situação e actuem em conformidade.

Além disso, convidamos jornalistas e voluntários a aprofundar o estudo das listas publicadas. Muitas vezes, estão por detrás de nomes formais representantes dos serviços de inteligência russos. Assim, em Março de 2025, jornalistas da “Agents Media” descobriram que o verdadeiro responsável pela “GC EKS JSC” (n.º 2 na lista de contratadores, com contratos governamentais no valor de 500 mil milhões de rublos) é o oficial do GRU russo Alexey Vlasov.

A referida “GC EKS” é a número 2 na lista de contratadores do Fundo para o Desenvolvimento dos Territórios, que opera nos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia.


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