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«Ciberressabiamento»: como diplomatas russos incluíram a NAFO e a InformNapalm na sua “lista de hackers”

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia há muito que deixou de funcionar como uma agência diplomática clássica, tendo-se transformado num instrumento de comunicação da propaganda estatal. Nas suas intervenções públicas, os diplomatas russos reproduzem de forma sistemática narrativas manipuladoras, distorcem relações de causa e efeito e procuram condicionar a percepção das audiências internacionais.

A 25 de Abril de 2026, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo divulgou uma declaração da Embaixada da Rússia na Noruega, com comentários sobre ciberguerra, destinada ao portal de notícias norueguês “Kode24”.

Nessa comunicação, foi apresentada uma lista dos chamados “grupos de hackers pró-ucranianos” alegadamente responsáveis por ataques contra infraestruturas russas em 2025 (publicação arquivada no Telegram e publicação arquivada na plataforma X).

Lista caótica como instrumento de manipulação

A lista divulgada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros russo não corresponde ao resultado de um trabalho analítico estruturado, mas sim a uma compilação heterogénea e desorganizada de nomes. Não existe qualquer classificação por dimensão, natureza ou tipo de actividade. O conjunto inclui:

É particularmente significativo que as autoridades diplomáticas russas tenham incluído a NAFO e a InformNapalm nesta categoria de “grupos de hackers”. A primeira é um movimento descentralizado de memes, conhecido sobretudo por combater a propaganda russa nas redes sociais, enquanto a segunda é uma Comunidade Internacional de Investigação e Inteligência que, há mais de 12 anos, publica em várias línguas informação sobre o aparelho militar russo e expõe as suas actividades.

Nenhuma destas entidades corresponde à definição clássica de “grupo de hackers”. A NAFO recorre à linguagem memética para desmontar e ridicularizar narrativas pró-russas, recusando-lhes enquadramento num debate formal. Já a InformNapalm actua no domínio da análise aberta e da documentação de crimes de guerra atribuídos à Rússia, um trabalho que, ao longo dos anos, tem gerado desconforto evidente em Moscovo, o que ajuda a contextualizar a sua inclusão nesta lista.

De forma relevante, o artigo do “Kode24” refere a versão norueguesa do site da InformNapalm não como uma plataforma de ciberataques, mas como uma fonte de informação sobre as operações conduzidas por grupos cibernéticos ucranianos.

O papel real da InformNapalm

Ao longo de mais de 12 anos de actividade, a InformNapalm tem desempenhado um papel significativo na monitorização e cobertura de operações cibernéticas relacionadas com a Rússia. Ainda assim, a sua atuação é sobretudo analítica e não operacional, embora a comunidade possa, ocasionalmente, partilhar conhecimento técnico com outros intervenientes do ecossistema de hacktivismo.

As principais áreas de trabalho incluem:

Este trabalho assegura a divulgação internacional das matérias em análise e transforma incidentes isolados, como fugas de informação ou intrusões digitais, numa base coerente de evidência acessível a uma audiência global.

A narrativa do Kremlin da “ciberguerra ocidental”

A inclusão indiscriminada de hackers, analistas e até movimentos de memes numa única lista não é um erro isolado, mas antes parte de uma estratégia de comunicação do Kremlin.

O objectivo passa por criar a percepção de uma ameaça cibernética centralizada, reforçar a ideia de “controlo externo” sobre operações hostis e legitimar, por contraste, acções repressivas ou ofensivas no espaço digital.

Contudo, a realidade é bem menos conveniente para o lado russo.

Na prática, os esforços de contra-acção da Ucrânia no ciberespaço contra a Rússia  assentam, em grande medida, em iniciativas voluntárias e descentralizadas, sem uma estrutura de comando única.

A tentativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo de enquadrar a NAFO e a InformNapalm como “grupos de hackers” constitui, assim, mais um exemplo de manipulação informativa orientada para simplificar uma realidade complexa e promover narrativas alinhadas com o Kremlin.

Historicamente, a Rússia tende a sobrestimar o papel de um suposto “Ocidente coletivo”, enquanto desvaloriza o impacto das redes horizontais ucranianas e internacionais. No entanto, estas comunidades, independentes, descentralizadas e motivadas, continuam a desempenhar um papel central na resistência informacional e no ciberespaço.

Para melhor compreender e avaliar as actuais operações cibernéticas ofensivas e de inteligência conduzidas por especialistas ucranianos, recomenda-se igualmente a consulta dos seguintes materiais:


O artigo foi preparado pela voluntária Helena Sofia da Costa especificamente para os leitores do site da Comunidade Internacional de informação InformNapalm; as traduções para inglês e português foram realizadas pela autora.

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