
OpsHackRussia’sDay
A Сomunidade Internacional Voluntária de informação InformNapalm, em colaboração com especialistas do grupo Militant Intelligence (INTMILIT), continua a divulgar materiais obtidos no âmbito da operação cibernética de múltiplos níveis OpsHackRussia’sDay #OHRD
Durante esta operação, foi hackeada uma rede inteira de empresas russas ligadas ao complexo militar-industrial da Federação Russa, revelando a sua correspondência interna corporativa. Parte dessa comunicação envolvia contratadores estrangeiros e expõe esquemas ilegais usados para contornar sanções internacionais — incluindo empresas de países membros da NATO.
Consideramos esta actividade por parte de empresas de defesa europeias absolutamente inaceitável, pois permite à Rússia não só obter lucros e componentes adicionais, como também sabotar a estratégia de sanções da União Europeia e minar a arquitectura de segurança dos países da NATO.
Budapeste como centro do lobby russo no mundo
Após a publicação da nossa investigação anterior sobre a actividade da empresa húngara Milspace Kft, que ajudava fabricantes de armamento russos a contornar as sanções internacionais da UE, recebemos dezenas de pedidos de jornalistas a solicitar um contexto mais alargado e, sempre que possível, a divulgação de mais documentos para apoiar novas investigações.
Nos arquivos da operação OpsHackRussia’sDay, encontrámos mais um conjunto de documentos relacionados com a Hungria e com a cooperação técnico-militar entre Budapeste e Moscovo após 2014. Estes materiais não só confirmam os dados que já havíamos tornado públicos, como também permitem tirar conclusões mais amplas: sob a liderança de Viktor Orbán, a Hungria, apesar de ser um Estado-membro da NATO e da União Europeia, tornou-se, na prática, um centro de operações para empresas russas do sector da defesa, diplomatas e serviços secretos, que utilizam o país para promover os interesses da Federação Russa na Europa.
Mais adiante neste artigo, com base em documentos oficiais, incluindo cartas, contratos e relatórios, iremos demonstrar em detalhe como a Rússia, apesar das sanções, manteve a cooperação técnica com o Ministério da Defesa da Hungria, com a participação da empresa israelita Israel Aerospace Industries e de empresas russas ligadas à empresa “Helicópteros da Rússia” e à “Oboronprom”.
Provas documentais
Em seguida, publicamos capturas de ecrã dos documentos-chave, acompanhadas de uma breve descrição do seu conteúdo. Caso necessário, estamos disponíveis para fornecer cópias originais desses documentos nos formatos PDF ou DOCX, sem marcas de água, a fim de comprovar a sua autenticidade. Para esta publicação, foram utilizadas capturas de ecrã com marcações gráficas da InformNapalm e do grupo Militant Intelligence.
Carta do FSVTS da Federação Russa ao Ministério da Defesa da Hungria (9 de Março de 2016)
Na carta, o Serviço Federal de Cooperação Técnico-Militar da Rússia (russo: ФСВТС; FSVTS) confirma oficialmente a autoridade da empresa “JSC Helicópteros da Rússia” para participar no concurso do Ministério da Defesa da Hungria para a reparação geral de 4 a 5 helicópteros Mi-17. É enfatizado que o fabricante, a “Fábrica de Helicópteros de Moscovo M.L. Mil”, deve necessariamente estar envolvido na reparação. Isto demonstra a participação directa das empresas de defesa russas na modernização do armamento de um Estado-membro da NATO, mesmo após o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em 2014.
Relatório da JSC “Helicópteros da Rússia” sobre a cooperação com a Hungria (2016)
A lista detalhada do parque de helicópteros húngaro de fabrico soviético/russo contém 55 unidades, incluindo Mi-8/17, Mi-24 e Ka-26.
No documento também é referido que, num dos contratos de 2013, a empresa russa “Oboronprom” recebeu um pedido para suporte técnico e reparações no valor superior a 16,9 milhões de dólares. Até Fevereiro de 2016, já tinham sido realizados trabalhos no montante de 4,6 milhões de dólares.
Além disso, menciona-se que, em 2015, a Federação Russa não foi convidada a participar no concurso, mas que, posteriormente, graças ao trabalho com intermediários húngaros, nomeadamente a “Armitech Ltd.”, a empresa “Helicópteros da Rússia” foi autorizada a participar na competição seguinte.
Certificado de conformidade de qualidade dos produtos da JSC “Oboronprom” (2014)
O documento confirma o fornecimento de componentes para os helicópteros Mi-17/Mi-8 da Força Aérea Húngara pela “Oboronprom”. As entregas foram feitas através do Ministério da Defesa da Hungria, contornando as sanções da UE impostas após a ocupação russa da Crimeia. Deste modo, a parte húngara ignorou, na prática, as restrições em vigor desde 2014, estabelecidas pelo Regulamento (UE) n.º 833/2014 do Conselho Europeu.
Carta da “Israel Aerospace Industries” para a “Helicópteros da Rússia” (2018)
Nesta carta, dirigida ao CEO da “Helicópteros da Rússia”, Andrey Boginsky, a empresa israelita “Israel Aerospace Industries” (IAI) manifesta a sua disponibilidade para participar na modernização dos helicópteros Mi-35 para a Hungria, bem como para colaborar com a Rússia no projecto Ka-226 na Índia. Esta correspondência evidencia o interesse da empresa israelita numa cooperação comercial com a Federação Russa, apesar do isolamento internacional deste país.
Análise: Budapeste é o elo fraco da segurança da UE e a porta de entrada da Federação Russa na NATO
Todos estes documentos apontam para uma tendência preocupante: a Rússia utiliza sistematicamente a Hungria como ponto de entrada para as suas empresas do complexo militar-industrial no mercado da UE e da NATO. Apesar das sanções e restrições, autoridades e empresas húngaras criaram condições que permitem às empresas russas não só obter lucros, mas também manter o controlo sobre a manutenção de sistemas críticos de defesa em países membros da NATO.
Isto cria riscos directos para a NATO:
- fuga de informação técnica para a Federação Russa;
- consolidação da influência russa nas estruturas de defesa da UE;
- enfraquecimento da política de sanções da União Europeia;
- criação de um corredor cinzento para contornar as restrições, envolvendo terceiros países (como no caso de Israel e Índia).
Conclusões e apelos à acção
Nós, como voluntários independentes e jornalistas de investigação, consideramos que a Hungria, enquanto membro da NATO e da UE, deve ser responsabilizada pelo auxílio sistemático na violação das sanções e pela cooperação com o complexo militar-industrial russo. A política pró-Rússia de Viktor Orbán mina, na prática, os fundamentos da arquitetura comum de segurança da Aliança. Isto acontece não só num contexto de sabotagem aberta às decisões políticas e militares no âmbito da UE e da NATO, mas também persiste em esquemas ocultos, nos quais Budapeste se tornou o principal centro de operações para os russos.
Apelamos a:
- Comissão Europeia – para conduzir uma investigação sobre os factos expostos nos documentos, tendo em conta que estes esquemas de cooperação podem ainda estar em curso;
- Governos dos países membros da NATO – para exigirem explicações à Hungria sobre a extensão e natureza da cooperação com a Federação Russa;
- Jornalistas e analistas – para que coloquem a atenção em Budapeste como um ponto crítico na estratégia do Kremlin para minar as sanções e ampliar a sua influência na Europa.
As publicações que expõem empresas estrangeiras que conscientemente ajudam a Rússia a contornar as sanções vão continuar no nosso site voluntário, em várias línguas, no âmbito da operação #OpsHackRussia’sDay.
Estão na linha de espera outras empresas internacionais que ajudam os russos a violar e contornar as sanções.
Recordamos que, se alguma empresa europeia, americana ou de outro país estrangeiro estiver a planear iniciar uma cooperação secreta com os russos no setor da defesa, aconselhamos a desistir dessa ideia, pois a documentação confidencial acabará sempre por vazar da Rússia.
Com o exemplo da #OpsHackRussia’sDay, pode confirmar-se que a Rússia não sabe guardar segredos, nem os seus, nem os dos seus parceiros.
Acompanhe as actualizações na secção de notícias da InformNapalm, pois há mais notícias a caminho.
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