
A escalada do problema: Starlink em drones russos
Ainda em 2024, a Rússia começou a instalar, de forma experimental, terminais Starlink nos seus drones de reconhecimento e de ataque, com o objectivo de contornar os sistemas ucranianos de guerra electrónica (GE). No final de 2025 e início de 2026, esta prática evoluiu para um procedimento sistemático, com impacto directo na eficácia dos ataques terroristas russos contra infra-estruturas civis.
A ligação por satélite Starlink proporciona aos drones:
- controlo estável em condições de guerra electrónica activa;
- transmissão de dados em tempo real;
- aumento do alcance e da precisão dos ataques terroristas.
Na prática, o Starlink tornou‑se um multiplicador tecnológico das capacidades operacionais das unidades russas de drones.
Uso documentado do Starlink em drones russos:
- Shahed / Geran – drones kamikaze de longo alcance (até 2.000 km); terminais Starlink foram identificados em exemplares abatidos entre 2024 e 2026.
- “Molniya” (Molniya-2, Molniya-2R) – drones tácticos FPV (até 50–60 km), adaptados para reconhecimento e ataques, incluindo com Starlink Mini; desde Dezembro de 2025, têm sido utilizados activamente pela unidade russa “Rubikon”.
- BM-35 – drone de longo alcance (até 500 km), com Starlink registado em Janeiro de 2026 durante ataques a Dnipro e Odessa.
Investigações ocidentais e ucranianas, incluindo artigos do Der Spiegel com confirmação do GUR do Ministério da Defesa da Ucrânia, bem como análises da Defense Express, do ISW e do especialista em guerra electrónica Serhii Beskrestnov, indicam que a Rússia está a escalar de forma deliberada o uso do Starlink para contrariar os sistemas ucranianos de guerra electrónica (GE).
Como o Starlink chega à Federação Russa: rotas, mecanismos de evasão às sanções e acumulação de terminais
Apesar das sanções e das declarações públicas da SpaceX sobre a ausência de fornecimentos para a Rússia, os terminais Starlink chegam ao país através de esquemas de importação paralela, recorrendo a países terceiros.
A investigação OSINT da Nordsint , à qual chamámos atenção no início de Janeiro de 2026, revelou que estes esquemas incluem:
- utilização de países do Médio Oriente, da Ásia Central e da Ásia como hubs de trânsito;
- activação dos terminais através de contas registadas fora da Rússia;
- legalização do equipamento mediante declarações fictícias ou distorcidas.
O autor da investigação da Nordsint forneceu também à Comunidade Voluntária Internacional de informação InformNapalm uma cópia da carta de porte que recebeu em resposta ao seu pedido à Emaross Group FZE. O documento confirma o envio de um lote de equipamento de Dubai World Central (EAU) para Bishkek (Quirguistão) em Maio de 2024 — uma rota que tem sido repetidamente identificada em esquemas de reexportação para a Rússia.

Um pormenor revelador é a manipulação deliberada da classificação aduaneira: na carta de porte, o equipamento Starlink surge declarado como “routers and adapters”, com o código HS 87089900, correspondente a peças automóveis, e não a equipamento de telecomunicações. Esta prática é amplamente utilizada para reduzir a atenção das autoridades aduaneiras e dos organismos de controlo durante o transporte de tecnologias sensíveis.
Em conjunto, estes factos não apontam para violações isoladas, mas sim para a acumulação de lotes de Starlink que acabam por chegar à Rússia e ser utilizados em contextos militares, no âmbito de uma guerra agressiva de natureza terrorista contra a Ucrânia.
Conclusões e possíveis medidas de resposta
Os dados obtidos indicam que o problema do fornecimento de Starlink à Rússia ultrapassa o enquadramento formal do regime de sanções e tem consequências militares directas para a Ucrânia, nomeadamente na esfera humanitária, quando os ataques russos com drones visam causar danos sobretudo à população civil, privando-a de electricidade, água e aquecimento nos meses frios de inverno.
Possíveis linhas de acção da comunidade internacional:
- Reforço do controlo sobre a exportação e trânsito de equipamentos de satélite e telecomunicações para países que são sistematicamente usados como hubs de reexportação para a Rússia.
- Análise e identificação dos terminais Starlink enviados para esses países, com posterior auditoria do seu uso efetivo.
- Implementação, por parte da SpaceX, de medidas técnicas e administrativas para limitar ou bloquear terminais utilizados em fins militares pela Rússia ou que violem regimes de sanções.
- Coordenação entre organismos sancionatórios, autoridades aduaneiras e fabricantes para detetar esquemas de ocultação de cargas (nomeadamente através de manipulação de códigos HS).
O Starlink há muito deixou de ser uma tecnologia civil neutra. A sua utilização em drones russos transforma a questão do controlo do fornecimento à Rússia num elemento de segurança, crucial para a proteção da população civil contra ataques terroristas russos.
Actualização: ataque terrorista de drones russos a um comboio civil ucraniano
Este artigo foi publicado pela primeira vez na tarde de 27 de Janeiro em ucraniano. Poucas horas após a publicação, tornou-se conhecido que drones de ataque russos atacaram o comboio civil nº 47/103 “Barvinkove — Chop”, que transportava 291 passageiros. As forças armadas russas lançaram três drones Shahed, que alcançaram o comboio na área da localidade de Yazykove (a 77 km da linha de frente).
Um dos UAV atingiu os carris à frente da locomotiva, enquanto os outros atingiram um vagão de passageiros no meio do comboio. Não se tratou de um incidente isolado, mas de um ataque terrorista coordenado. Os operadores dos drones, em tempo real, podiam claramente ver que estavam a atacar vagões com civis.
Segundo o jornal Fokus, o especialista em rádio-técnica e conselheiro do Ministro da Defesa, Serhii “Flash” Beskrestnov, afirmou que os Shahed utilizados no ataque estavam equipados com sistema de comunicação por satélite Starlink.
O jornal Fokus destacou também que, já na noite de 27 de Janeiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radosław Sikorski, dirigiu-se publicamente a Elon Musk, solicitando a limitação do uso do Starlink pelo exército russo. Em resposta, o bilionário norte-americano reagiu de forma agressiva no seu estilo habitual, num comentário no tweet de Sikorski, recusando-se a tomar quaisquer medidas.
Recorde-se que, tecnicamente, a SpaceX tem a capacidade de desligar terminais de forma seletiva. Em Setembro de 2023, surgiram notícias de que, em 2022, Elon Musk teria ordenado secretamente o corte da comunicação por satélite Starlink na região da Crimeia temporariamente ocupada, com o objectivo de sabotar uma operação ucraniana de ataque a navios do Mar Negro com drones de superfície nas baías de Sevastopol, também temporariamente ocupada.
É possível que, sob pressão da opinião pública norte-americana, Elon Musk venha a alterar a sua posição, mas para tal é necessário um amplo eco internacional. Dezenas, senão centenas, de publicações em meios de comunicação influentes têm destacado o problema do uso da tecnologia Starlink em drones russos, que acarreta ameaças terroristas globais à segurança, não apenas da população civil na Ucrânia, mas também de pessoas em outros países do mundo.
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