
Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Federação Russa, em Fevereiro de 2022, o posicionamento político de Portugal tem-se mantido relativamente estável e alinhado com o quadro euro-atlântico. A condenação da agressão russa e o apoio à soberania ucraniana tornaram-se posições praticamente consensuais no espaço institucional português, ainda que subsistam diferenças relevantes quanto à extensão e à natureza desse apoio.
A opinião pública: solidariedade com limites
As sondagens realizadas em Portugal indicam uma tendência consistente de apoio à Ucrânia, particularmente no plano humanitário. Estudos do CESOP da Universidade Católica Portuguesa evidenciam que uma larga maioria dos inquiridos manifesta abertura ao acolhimento de refugiados ucranianos e para a prestação de apoio material.
Em termos gerais, os dados apontam para um forte apoio ao acolhimento de refugiados e uma aceitação significativa do envio de equipamento militar. Todavia, observa-se maior prudência quando está em causa o aumento da despesa pública nacional, bem como uma divisão mais acentuada sempre que se coloca a hipótese de um envolvimento militar directo.
Este padrão revela uma constante estruturante da opinião pública portuguesa: uma solidariedade de base relativamente ao sofrimento da população ucraniana, acompanhada, contudo, por uma contenção clara no que respeita à escalada do compromisso nacional no conflito e às suas implicações financeiras e estratégicas.
Captura de ecrã do site Universidade Católica Portuguesa em Lisboa
Razões estruturais do apoio à Ucrânia
A orientação maioritária da sociedade portuguesa pode ser interpretada à luz de um conjunto de factores estruturais.
Em primeiro lugar, predomina a leitura da guerra como uma violação do direito internacional e da soberania de um Estado independente. Neste contexto, a comunicação social portuguesa tem contribuído para consolidar a percepção da Rússia como potência agressora.
Em segundo lugar, a integração de Portugal na União Europeia e na NATO enquadra o conflito numa lógica de segurança colectiva europeia, reforçando a identificação com a posição ocidental.
Em terceiro lugar, a dimensão humanitária assumiu particular relevância. A chegada de refugiados ucranianos a Portugal gerou uma vaga de solidariedade social, visível em iniciativas de apoio promovidas por autarquias, instituições e sociedade civil.
Por fim, subsiste o receio de que uma eventual vitória russa possa alterar o equilíbrio estratégico europeu, com consequências imprevisíveis para a estabilidade do continente.
Esta conjugação de factores traduz uma característica persistente da opinião pública portuguesa: solidariedade internacional acompanhada de prudência quanto ao envolvimento directo em conflitos armados.
Símbolos, memória histórica e percepções políticas
Portugal distingue-se de alguns países da Europa de Leste por não ter proibido símbolos soviéticos nem criminalizado a iconografia associada à antiga União Soviética. Esta realidade explica-se, em parte, pelo percurso histórico nacional após o 25 de Abril e pela existência de uma tradição comunista legal e parlamentar.
O Partido Comunista Português mantém representação regular na Assembleia da República e integra o sistema democrático português há décadas. Além disso, Portugal nunca viveu ocupação soviética, o que contribui para uma menor carga traumática associada a determinados símbolos históricos.
Esta diferença de contexto histórico ajuda a explicar porque razão manifestações de cariz soviético têm, em Portugal, uma leitura menos sensível do que em países como a Polónia, a Letónia ou a Lituânia.
Ainda assim, este enquadramento não está isento de polémica, sobretudo quando tais manifestações são percepcionadas como tendo uma dimensão política contemporânea.
O “Regimento Imortal” e a disputa de narrativas
O denominado “Regimento Imortal” (russo: Bessmertny Polk), uma marcha criada originalmente na Rússia com o falso objectivo de homenagear familiares que combateram na Grande Guerra Patriótica”, tornou-se objecto de controvérsia em diversos países europeus após 2022.
Do ponto de vista histórico, importa recordar que a Segunda Guerra Mundial teve início em 1939 com a assinatura do pacto germano-soviético e a invasão conjunta da Polónia pela Alemanha nazi e pela União Soviética e a divisão da Polónia entre ambas as potências. Este enquadramento é frequentemente objecto de disputa interpretativa entre narrativas ocidentais e narrativas russas.
A controvérsia intensificou-se sobretudo devido à instrumentalização da memória histórica por parte do poder político russo, nomeadamente através da centralidade atribuída à narrativa da “Grande Guerra Patriótica”, expressão utilizada na Rússia para designar o período da guerra entre 1941 e 1945, em vez de utilizar o termo mais correcto, Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, a narrativa oficial soviética passou a centrar a cronologia da guerra no ano de 1941, designando o conflito como “Grande Guerra Patriótica”, expressão que ainda hoje é utilizada na Federação Russa. Esta alteração terminológica reflecte uma construção historiográfica específica, associada à forma como a memória da Segunda Guerra Mundial foi institucionalmente enquadrada no espaço soviético e pós-soviético.
Assim, se, no plano formal, o evento se apresenta como uma homenagem à memória dos combatentes da Segunda Guerra Mundial, diversos críticos argumentam que, no contexto actual, pode funcionar como veículo de afirmação simbólica do Estado russo.
Acresce que a Ucrânia e a Bielorrússia foram entre os territórios mais devastados pelo conflito, tanto em termos militares como civis, com perdas humanas extremamente elevadas e destruição generalizada do tecido social e infraestrutural.
A Ucrânia sofreu perdas humanas extremamente elevadas durante a Segunda Guerra Mundial, com estimativas que apontam para cerca de 8 a 10 milhões de mortos. Entre estas vítimas incluem-se milhões de civis e militares, num contexto em que o território ucraniano foi palco de algumas das mais intensas operações militares da frente de Leste. A guerra provocou uma destruição generalizada, com impactos demográficos e sociais profundamente duradouros.
«Soft Power» e Narrativas Históricas: Iniciativas Comemorativas e Interpretações Políticas
Em vários países europeus, incluindo Portugal, estas iniciativas passaram a ser alvo de controvérsia após 2022, na sequência da invasão da Ucrânia pela Federação Russa. Críticos argumentam que, no contexto actual, o evento poderá ter ultrapassado a sua dimensão estritamente celebratória, sendo por vezes interpretado como instrumento de afirmação simbólica do Estado russo.
É neste contexto que se inscreve a tensão contemporânea em torno da memória da guerra: entre a homenagem legítima aos mortos e a instrumentalização política dessa memória no presente.
Acresce que a Federação Russa tem demonstrado capacidade para mobilizar narrativas de cariz histórico e emocional, frequentemente associadas a sensibilidades imperiais, utilizando-as como instrumento de influência simbólica não apenas no seu espaço interno, mas também em determinados contextos europeus. Esta dimensão de “soft power” histórico-cultural é frequentemente apontada como potencialmente problemática, na medida em que pode ser utilizada para moldar percepções públicas e enquadramentos políticos fora da Rússia.
É muito preocupante que uma parte significativa das comunidades de origem russa residentes em Portugal constituam uma “quinta coluna”(como se confirma pela aсtividade nas redes sociais onde se promovem narrativas pró-Kremlin), tendo em conta que a Rússia sabe provocar sentimentos imperialistas russos ao usar este ideologema como arma potente não apenas na Rússia, mas também dentro dos países europeus. Isso constitui um perigo bastante grande porque os russos residentes em Portugal nem sequer gostariam de reconstruir a sua própria pátria e não querem apoiar nem abolir o regime putinista, o regime do KGB, mas, pelo contrário, contrariando o bom senso, estão propensos e aptos a trazê-lo para Portugal, sendo assim, uma “quinta coluna”.
O mundo inteiro comemora a vitória sobre o nazismo a 8 de maio, enquanto a Rússia contraria o mundo ao declarar “o seu próprio caminho”. Mas, como se pode ver, o Ministério dos Negócios Estrangeiros está a ameaçar não apenas a Ucrânia, mas também diplomatas estrangeiros.
Esta parte a seguir foi traduzida do idioma russo.
Captura de ecrã da página da Embaixada da Rússia em Portugal
Comentário da representante oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, M. V. Zakharova
…O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia apela com veemência às autoridades do vosso país / à direcção da vossa organização para que encarem esta declaração com a máxima responsabilidade e assegurem a evacuação atempada da cidade de Kyiv do pessoal das representações diplomáticas e de outras missões, bem como de cidadãos, devido à inevitabilidade de um ataque de retaliação por parte das Forças Armadas da Federação Russa contra Kyiv, incluindo centros de tomada de decisão…
É bem conhecido o posicionamento do Ocidente colectivo em relação a 9 de Maio: estão a destruir sistematicamente o património memorial soviético, a exumar os restos mortais de soldados soviéticos e a reescrever e distorcer a história…
Todos os participantes do “Regimento Imortal” são igualmente apoiantes da agressão russa contra a Ucrânia, bem como contra outros países e ex-repúblicas da União Soviética, como a Geórgia, a Moldávia, a Ichkeria entre outras. Estes participantes utilizam frequentemente as letras “Z” e “V”, que se tornaram símbolos de apoio à ofensiva militar, bem como fitas de São Jorge e uniformes militares russos/soviéticos.
Estes demonstram de forma aberta o apoio à agressão e à política do regime do Kremlin, que, em termos gerais, já foi condenado pela União Europeia. Vladimir Putin foi ainda reconhecido como responsável por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional.
Infelizmente, outra marcha do “Regimento Imortal” vai ter lugar no dia 10 de Maio no centro de Lisboa, durante a qual, os participantes costumam usar o slogan, os ”ucranianos são nazis”.
Os dados de contacto estão claramente indicados na fotografia (da página “Новости Португалии” [“Notícias de Portugal”], um veículo de difusão de narrativas do Kremlin).
Conclusão
O debate em torno da memória histórica e da circulação de narrativas simbólicas demonstra que a guerra não se limita ao campo militar, mas se prolonga também no domínio político, cultural e informativo, onde diferentes interpretações do passado continuam a influenciar profundamente o presente.
No entanto, Portugal geralmente tolera estes eventos por várias razões ligadas ao sistema democrático e jurídico português. Isto porque Portugal não impede que alguns participantes utilizem bandeiras associadas à guerra actual ou mensagens pró-Rússia, ainda que símbolos soviéticos e nacionalistas russos tenham passado a ser associados ao apoio político ao Kremlin e a responsáveis por crimes de guerra.
Isto chama-se democracia. No entanto, importa reflectir sobre o facto de que, ao permitir a circulação de plataformas ou expressões associadas à propaganda da violência, da guerra e da agressão, o país pode enfrentar situações de maior incerteza, instabilidade ou até risco acrescido.
O artigo foi preparado pela voluntária Helena Sofia da Costa especificamente para os leitores do site da Comunidade Internacional de informação InformNapalm; as traduções para inglês e português foram realizadas pela autora.
Estão convidados a usar essas informações nas vossas páginas da web. Todos os materiais do site InformNapalm.org têm Licença de Atribuição CC BY, o que torna mais fácil a jornalistas e bloggers de todo o mundo espalharem a palavra. Páginas da InformNapalm: Facebook / Тwitter / Telegram/ Slate (Sl8).![]()








Read the latest book “Donbas in Flames. Guide to the Conflict Zone” published by Prometheus Center. This guide will be useful to journalists, researchers, war experts, diplomats and general readers seeking information on the war in Donbas.
No Responses to “O Clima político em Portugal relativamente à guerra russa contra a Ucrânia, actualização de 2026”