
A 7 de Setembro, drones russos atingiram uma importante unidade de produção da British American Tobacco em Pryluky. Para a Ucrânia, trata-se de mais um golpe na economia civil. Para a Rússia, é uma oportunidade para olhar para a sua própria indústria tabaqueira: mais de 200 mil milhões de cigarros produzidos anualmente e mais de mil milhões de rublos em impostos especiais sobre o consumo, que o orçamento federal deverá arrecadar em 2026.
Um ataque contra uma unidade de produção em funcionamento
Na tarde de 7 de Setembro, drones russos atacaram a unidade de produção da British American Tobacco (BAT) em funcionamento em Pryluky, na região de Chernihiv. A BAT confirmou danos nas instalações de produção e nos armazéns. Segundo trabalhadores, o telhado da área de produção de cigarros incendiou-se na sequência do ataque.
A publicação internacional especializada do sector, Nicotine Insider, também descreveu o incidente como um ataque que afectou directamente as operações de produção da fábrica.
Isto é importante: o ataque afectou não apenas armazéns ou infra-estruturas auxiliares, mas uma unidade de produção em funcionamento que continuou a operar durante toda a guerra em grande escala. Em 2026, a BAT informou que cerca de 800 pessoas trabalham para a empresa na Ucrânia, mais de 400 das quais em Pryluky, enquanto os produtos desta unidade são exportados para a União Europeia, o Médio Oriente e a Ásia Central.
Segundo dados da própria BAT, as operações da empresa na Ucrânia pagaram mais de 38 mil milhões de hryvnias em impostos e outros pagamentos ao orçamento do Estado em 2024. Este valor diz respeito à BAT Ukraine no seu conjunto e não apenas à unidade de Pryluky.
Não é o primeiro ataque ao sector tabaqueiro
O ataque à BAT é o mais recente de uma série de ataques russos contra activos do sector tabaqueiro na Ucrânia. Entre os casos confirmados e noticiados em fontes abertas encontram-se:
- 3 de Maio de 2022 – Philip Morris, região de Kharkiv. Na sequência de um bombardeamento russo, deflagrou um incêndio num edifício administrativo nas instalações da empresa. Documentos judiciais registam danos em cerca de 800 metros quadrados de instalações e a abertura de um processo criminal por violações das leis e costumes da guerra.
- 28 de Maio de 2023 – Imperial Tobacco, Kyiv. Durante um ataque russo de grande escala, o edifício da fábrica da Imperial Tobacco em Kyiv, que se encontrava em funcionamento, foi danificado. Segundo a Forbes, pelo menos uma das paredes na extremidade da fábrica foi destruída. Na altura, a unidade estava em funcionamento e, além de produzir as suas próprias marcas, executava encomendas para a Philip Morris, que não podia utilizar as suas instalações na região de Kharkiv.
- 30 de Janeiro de 2026 – Philip Morris, região de Kharkiv. Um míssil russo atingiu um edifício de armazém, provocando um incêndio que se propagou por mais de 5.000 metros quadrados. A produção nesta fábrica tinha sido suspensa em 24 de Fevereiro de 2022. Mais tarde, a Philip Morris estimou os danos em cerca de 16 milhões de dólares.
- 8 de Julho de 2026 – Philip Morris, Kyiv. Durante um ataque russo de grande escala, um armazém de produtos acabados foi completamente destruído. A empresa classificou este como o quarto ataque contra os seus activos desde o início da invasão em grande escala.
- Noite de 5 de Agosto de 2026 – JTI e Imperial Brands. Um ataque russo destruiu um armazém de produtos acabados da JTI Ukraine na região de Kyiv. A Imperial Brands Ukraine comunicou a perda dos seus produtos armazenados em armazéns operados por distribuidores e parceiros comerciais.
- 7 de Setembro de 2026 – BAT, Pryluky. Drones russos atingiram uma importante unidade de produção em funcionamento. A BAT confirmou oficialmente danos nas instalações de produção e nos armazéns, enquanto trabalhadores relataram um incêndio na área de produção de cigarros.
Assim, os ataques russos afectaram repetidamente instalações de produção, armazéns e activos logísticos pertencentes à Philip Morris, Imperial Tobacco, JTI e British American Tobacco.
A recorrência destes incidentes foi também assinalada pela imprensa internacional especializada no sector. A Nicotine Insider iniciou a sua reportagem sobre Pryluky com as palavras: «O mais recente ataque da Rússia contra a Ucrânia atingiu novamente a indústria tabaqueira» – colocando, na prática, a BAT no mesmo contexto dos ataques anteriores que afectaram a JTI, a Imperial Brands e a Philip Morris.
A reacção do espaço informativo russo pró-guerra é também reveladora.
O grande canal Z pró-guerra Rybar, com milhões de seguidores, descreveu uma «série de ataques de precisão» russos na sua crónica de 7 de Setembro e destacou a fábrica de tabaco de Pryluky como um «alvo relevante», sublinhando a dimensão das instalações.
Parte de um ataque mais amplo à economia civil
O ataque à BAT deve ser visto não apenas como mais um episódio dos ataques contra activos do sector tabaqueiro, mas também como parte de uma tendência mais ampla: os ataques russos atingem cada vez mais instalações de produção civil, armazéns, estabelecimentos comerciais e infra-estruturas logísticas.
Desde Fevereiro de 2022, os ataques russos têm destruído regularmente armazéns civis, centros de distribuição, estabelecimentos comerciais e importantes unidades de produção civil em toda a Ucrânia. Em 2026, porém, esta táctica ganhou ainda maior dimensão.
A Forbes já descreveu esta situação como uma «nova fase da guerra» para as empresas ucranianas: depois de sofrerem perdas avultadas, as empresas estão a ser obrigadas a dispersar os seus stocks, duplicar as cadeias logísticas e repensar as suas infra-estruturas de armazenagem.
A 3 de Setembro, drones russos danificaram uma fábrica da Coca-Cola nas proximidades de Kyiv.
A 8 de Setembro, no dia seguinte ao ataque à BAT, as forças russas voltaram a atacar
Pryluky, atingindo o centro comercial Epicentr. O mesmo centro comercial já tinha sido atingido por um ataque russo a 19 de Maio de 2026.
Nessa mesma noite, o mercado grossista e retalhista do 7.º Quilómetro, nas proximidades de Odesa, foi danificado. Segundo as autoridades locais, três pessoas ficaram feridas.
Uma imagem espelhada: o mercado tabaqueiro russo
Segundo a Rosstat, as empresas russas produziram 209 mil milhões de cigarros em 2025, um aumento de 7,5% face a 2024. Entre Janeiro e Julho de 2026, a produção atingiu mais 120 mil milhões de cigarros.
Trata-se de um mercado de massas que produz centenas de milhares de milhões de unidades de produtos todos os anos. Ao mesmo tempo, uma parte significativa do mercado continua ligada a empresas multinacionais.
JTI: mais de 40% do segmento de tabaco tradicional
A Japan Tobacco International apresenta-se como líder do mercado tabaqueiro russo. Segundo o relatório do primeiro trimestre de 2026 do JT Group, a JTI detinha 41,2% do segmento russo de produtos de tabaco tradicionais e 35,6% do mercado tabaqueiro no seu conjunto, incluindo os produtos de tabaco aquecido.
A JTI possui quatro unidades de produção no mercado russo: duas fábricas de produtos de tabaco acabados e duas instalações dedicadas ao processamento de folha de tabaco.
Isto significa que, quatro anos e meio após o início da guerra em grande escala, uma única empresa multinacional continua a controlar mais de dois quintos do segmento russo de produtos de tabaco tradicionais.
Philip Morris: a Rússia continua a representar cerca de 6% das receitas globais
A Philip Morris International continua também a operar na Rússia. O sítio da empresa indica cerca de 3.200 trabalhadores e duas unidades de produção na Rússia; todos os cigarros da PMI vendidos no mercado russo são produzidos directamente no país.
Segundo os relatórios financeiros da PMI, em 2025 a Rússia representou aproximadamente 9% dos volumes globais de expedição de cigarros e produtos de tabaco aquecido da empresa e cerca de 6% das suas receitas líquidas globais.
A componente fiscal é particularmente reveladora. No seu relatório anual oficial apresentado à SEC, a Philip Morris indicou que, em 2025, pagou na Rússia 348 milhões de dólares em imposto sobre o rendimento das empresas. Para comparação, em Agosto de 2023, quando a Agência Nacional de Prevenção da Corrupção da Ucrânia (NACP) incluiu a PMI na sua então lista de «Patrocinadores Internacionais da Guerra», a agência referiu que a empresa tinha pago mais de 136 milhões de dólares em imposto sobre o rendimento das empresas na Rússia em 2022.
A BAT e a Imperial Brands saíram do mercado russo.
A British American Tobacco concluiu, em Setembro de 2023, a venda dos seus activos na Rússia e na Bielorrússia a um consórcio constituído pela antiga equipa de gestão local. A BAT declarou oficialmente que, na sequência da operação, deixaria de ter presença nestes países e que não obteria qualquer benefício financeiro de vendas posteriores. A antiga operação da BAT continuou a funcionar na Rússia sob a designação ITMS Group.
De acordo com o seu relatório anual, a Imperial Brands transferiu os seus activos na Rússia para investidores locais em Abril de 2022, por 20 milhões de libras.
Assim, quando se trata especificamente da actual presença directa de empresas multinacionais no mercado russo de tabaco, a PMI e a JTI continuam a ser as principais empresas a analisar.
O «bilião do tabaco»: quanto recebe o orçamento russo?
O principal indicador económico não é apenas o volume de produção, mas também o fluxo de receitas fiscais.
De acordo com as estimativas do orçamento russo, em 2026, os impostos especiais de consumo sobre os produtos de tabaco vendidos no mercado interno deverão gerar aproximadamente:
1,036 biliões de rublos.
Prevê-se ainda uma receita de 46,6 mil milhões de rublos proveniente dos produtos de tabaco importados.
Para comparação, as receitas federais totais previstas ascendem a aproximadamente 40,283 biliões de rublos. Assim, os impostos especiais de consumo sobre o tabaco vendido no mercado interno representam cerca de 2,57% de todas as receitas federais — aproximadamente um em cada 39 rublos.
A rubrica «Defesa Nacional» do orçamento de 2026 prevê cerca de 12,93 biliões de rublos. As receitas provenientes dos impostos especiais de consumo sobre o tabaco vendido no mercado interno equivalem, portanto, a cerca de 8% desse montante. Para comparação, para 2025 estavam previstas receitas de aproximadamente 981,9 mil milhões de rublos provenientes dos impostos especiais de consumo sobre o tabaco. Por outras palavras, as receitas previstas deverão aumentar cerca de 5,5%.
Isto não significa que os impostos especiais de consumo sobre o tabaco financiam directamente a aquisição de equipamento militar. No entanto, os fundos orçamentais são fungíveis: um fluxo estável de receitas de 1,036 biliões de rublos proveniente de um mercado civil aumenta o conjunto global de recursos à disposição do Estado e pode, potencialmente, permitir que uma parcela maior dos seus próprios fundos seja canalizada para outras categorias de despesa, incluindo a despesa militar.
Num contexto de agravamento do défice orçamental, esta estabilidade assume ainda maior importância. Segundo a Reuters, o défice do orçamento federal russo atingiu 2,8% do PIB entre Janeiro e Julho de 2026, face à meta oficial de 1,6% para o conjunto do ano.
E a quantos mísseis Kalibr corresponde esse montante?
Em Outubro de 2025, o Militarnyi publicou dados provenientes de documentos russos de contratação pública a que teve acesso. Os documentos indicavam que o Ministério da Defesa russo tinha celebrado contratos para mais 450 mísseis de cruzeiro 3M14 Kalibr, com entrega prevista para 2025–2026, a um preço contratual estimado de aproximadamente 168 milhões de rublos por míssil.
Se este preço contratual for utilizado exclusivamente como referência para comparar a ordem de grandeza, então:
1,036 biliões de rublos (aproximadamente 12,02 mil milhões de dólares) correspondem a cerca de 6.170 mísseis Kalibr.
Isto não significa que a Rússia pudesse produzir fisicamente 6.170 mísseis deste tipo num único ano, nem que as receitas dos impostos especiais de consumo sobre o tabaco sejam directamente afectadas a contratos para o fornecimento de mísseis. Trata-se simplesmente de uma forma de ilustrar a dimensão do fluxo fiscal anual gerado pelo mercado legal de tabaco em termos da despesa militar russa.
Porque é que um ataque a uma única fábrica não faria desaparecer o «bilião do tabaco»
Seria errado assumir que a destruição de uma determinada instalação priva automaticamente o orçamento russo das receitas provenientes dos respectivos impostos especiais de consumo. Se os consumidores simplesmente mudarem para produtos fabricados por outro produtor legal, o Estado continuará a cobrar esse imposto.
Do ponto de vista fiscal, o que importa não é uma perturbação isolada, mas uma perturbação prolongada e sistémica do funcionamento do mercado. Uma perturbação deste tipo pode conduzir a um aumento das despesas com logística, seguros, armazéns de reserva e segurança, reduzir a rentabilidade das empresas e transferir parte da procura para o mercado ilícito, onde o Estado perderia receitas de impostos especiais de consumo e de IVA.
Ao mesmo tempo, o grande mercado interno russo tem uma capacidade significativa de adaptação. Por isso, problemas numa ou em várias instalações não significam a perda de todo o «bilião do tabaco».
A produção está também relativamente concentrada: a JTI e a PMI têm, no seu conjunto, seis instalações de produção na Rússia. O InformNapalm opta deliberadamente por não divulgar os endereços exactos nem os parâmetros técnicos dessas instalações.
Tabaco em guerra: um produto de grande consumo para os militares
O mercado do tabaco é importante para a Rússia não apenas como fonte de receitas fiscais. Os cigarros e outros produtos que contêm nicotina continuam a ser bens de consumo de uso corrente entre os militares.
A 1 de Agosto de 2026, o efectivo autorizado das Forças Armadas russas era de 2.426.130 pessoas, incluindo 1.535.000 militares. Separadamente, Vladimir Putin afirmou que o contingente russo envolvido na guerra contra a Ucrânia ultrapassa os 700.000 militares; este número não pode ser verificado de forma independente.
Em 2026, foi publicado na revista científica russa Public Health um estudo sobre o consumo de tabaco e de produtos com nicotina entre participantes na guerra contra a Ucrânia. Os autores inquiriram 1.135 participantes na guerra contra a Ucrânia nas instalações da Fundação estatal «Defensores da Pátria». Cerca de 67,2% declararam consumir tabaco ou produtos com nicotina, enquanto 60,2% apresentavam um nível elevado de dependência da nicotina.
Estes números não podem ser extrapolados mecanicamente para o conjunto das forças russas envolvidas na invasão, mas dão uma indicação da potencial dimensão da procura. Se, a título meramente hipotético, a percentagem de 67,2% fosse aplicada a um contingente de 700.000 militares, corresponderia a aproximadamente 470.000 consumidores de tabaco ou produtos com nicotina.
Um estudo russo sobre a acessibilidade económica dos cigarros, publicado em 2026, estimou em 0,36 a elasticidade das vendas em relação à acessibilidade económica. Quando a capacidade de compra diminui, uma parte dos consumidores não deixa de fumar, optando antes por marcas mais baratas e por outros canais de aquisição.
Para umas forças armadas de grande dimensão, isto significa que uma perturbação do funcionamento normal do mercado legal não elimina necessariamente a procura. Em vez disso, pode deslocá-la para produtos mais baratos, canais informais e o mercado ilícito.
Assim, o tabaco é simultaneamente uma fonte de mais de 1 bilhão de rublos em receitas de impostos especiais de consumo para a Rússia e é um produto de consumo de grande difusão, inclusive entre os militares.
Conclusão
O ataque à BAT, por si só, não prova que a Rússia esteja a levar a cabo uma campanha específica contra a indústria do tabaco. No entanto, insere-se numa série de ataques contra activos do sector tabaqueiro e enquadra-se no padrão mais amplo de propagação dos riscos da guerra à produção, ao comércio a retalho e à logística civis da Ucrânia.
Para a Rússia, o sector do tabaco é simultaneamente um mercado de consumo de massas, uma importante fonte de receitas fiscais e um produto de consumo corrente e de grande difusão, inclusive no contexto militar.
Moscovo pode aumentar o custo económico da guerra para a Ucrânia, mas não pode garantir que esse custo permaneça unilateral.
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Esta publicação foi preparada por Ashton Burson especialmente para os leitores da comunidade voluntária de inteligência InformNapalm. A sua distribuição e republicação, com referência à fonte, são bem-vindas! (Creative Commons — Atribuição 4.0 Internacional — CC BY 4.0).
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